Itália Atualizado Oct 2026
Ouve-se uma campainha de bicicleta junto ao fosso, e um ciclista passa pelas torres de tijolo de um castelo ducal: dentro das muralhas construídas para afirmar o poder, Ferrara continua a mover-se ao ritmo das pessoas. Em Ferrara, Itália, a grandiosidade renascentista partilha as ruas com o aroma de manteiga e salva dos cappellacci di zucca.
Foto: serena saponaro / Pexels
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Os duques de Este transformaram Ferrara no final do século XV, expandindo a cidade para norte com um bairro planeado de ruas largas e palácios elegantes. No Quadrivio degli Angeli, a luz percorre os 8 500 blocos de mármore facetados do Palazzo dei Diamanti; no interior do Palazzo Schifanoia, os frescos que sobreviveram no Salone dei Mesi transformam a vida cortesã num calendário.
A gastronomia de Ferrara preserva a sua própria história da corte e do campo. Prove os cappellacci recheados de abóbora com manteiga e salva, a coppia Ferrarese estaladiça e de muitas pontas, ou a salama da sugo, escura e intensamente condimentada, servida à colher sobre puré de batata.
O anel de muralhas com 9 quilómetros continua a ser um lugar para passear ou andar de bicicleta sem pressas, não apenas uma lembrança das antigas defesas. Siga-o, passando por baluartes e jardins, e depois regresse às ruas estreitas: Ferrara parece menos um museu do que uma cidade que aprendeu a viver confortavelmente dentro da sua história.
Não todos os monumentos, apenas aqueles por onde nós próprios o levaríamos a passar.
Onde deambular, bairro a bairro — cada um com o seu próprio ritmo.
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De uma fortaleza bizantina junto ao rio à cidade renascentista planeada
Muito antes de Ferrara ganhar forma, o porto etrusco de Spina ligava o Delta do Pó ao comércio através do Adriático. Os seus túmulos, descobertos mais tarde sob os pântanos, revelam quanto desta história permaneceu escondido debaixo de água e lodo.
Ferrara começou por ser um posto defensivo bizantino na margem norte do Pó, em frente ao antigo núcleo religioso em torno de San Giorgio, na margem sul. O rio era simultaneamente uma via de passagem e uma fronteira numa região disputada por Bizantinos e Lombardos.
Um documento datado de 753 é habitualmente citado como a primeira referência escrita a Ferrara pelo nome, numa época em que as forças lombardas tomaram o controlo ao Exarcado Bizantino de Ravena. As vitórias dos Francos reconfiguraram pouco depois a região, e Ferrara passou para a esfera de influência do Papado.
Após a morte de Matilde da Toscana, Ferrara declarou-se comuna livre. O poder cívico passou então para as instituições e famílias locais, embora as rivalidades entre fações mantivessem essa liberdade em situação precária.
Começou a construção da Catedral de San Giorgio, deslocando o centro cívico e religioso de Ferrara para norte do Pó. O portal de pedra esculpida e a fachada românica e gótica, com os seus vários estratos, mostram ainda como cada geração acrescentou a sua própria voz ao edifício.
Uma assembleia popular proclamou Obizzo II d’Este senhor de Ferrara por toda a vida, instituindo o domínio hereditário dos Este. As instituições comunais da cidade deram lugar a uma corte que moldaria a política, os edifícios e a vida artística de Ferrara durante séculos.
Depois de uma revolta contra os impostos terminar com o assassínio do comissário Tommaso da Tortona, Niccolò II d’Este mandou construir uma nova fortaleza. O Castello Estense de Bartolino da Novara ergueu-se em torno da Torre do Leão; o fosso e as pontes levadiças transformaram um aviso à cidade na silhueta que define Ferrara.
Alberto V d’Este fundou a Universidade de Ferrara através de uma bula do Papa Bonifácio IX. Um centro de estudos numa cidade de corte oferecia mais do que aulas: atraía estudiosos para a esfera de uma dinastia empenhada em fazer do saber parte da sua autoridade.
Parisina Malatesta e o seu enteado Ugo d’Este foram julgados por adultério e executados por ordem de Niccolò III d’Este. A história associada às salas subterrâneas do castelo confere às suas muralhas defensivas um passado mais íntimo e sombrio.
Girolamo Savonarola nasceu em Ferrara, onde passou os primeiros anos de vida antes de ingressar na Ordem Dominicana. A sua pregação posterior em Florença tornou-o famoso, mas a sua história começou nesta cidade de corte, longe das fogueiras a que o seu nome é tantas vezes associado.
Borso d’Este encomendou um ciclo de frescos para o Salone dei Mesi do Palazzo Schifanoia, onde deuses, signos do zodíaco e cenas da vida na corte se desenrolam pelas paredes. Os painéis que sobreviveram transformam a sala num calendário pintado do poder, apresentando Borso como o centro constante do ano de Ferrara.
O Papa Paulo II elevou Ferrara à categoria de ducado e nomeou Borso d’Este o seu primeiro duque. O novo título confirmou o prestígio da família, enquanto a sua corte atraía artistas e escritores à cidade.
A guerra entre Ferrara e Veneza eclodiu por causa de territórios e do lucrativo comércio do sal. As forças venezianas conquistaram localidades ao longo do Pó e cercaram a própria Ferrara, aproximando a ameaça da batalha da corte dos Este.
O Tratado de Bagnolo pôs fim à Guerra de Ferrara: os governantes dos Este conservaram a cidade, mas foram obrigados a entregar a Veneza a região do Polesine, em torno de Rovigo. Ferrara sobreviveu ao cerco; as suas fronteiras, não.
Ercole I d’Este encarregou o arquiteto Biagio Rossetti de ampliar Ferrara através da Addizione Erculea, com ruas largas e um plano urbano mais deliberado. Nesse mesmo ano, começaram as obras do Palazzo dei Diamanti, cujos numerosos blocos de mármore pontiagudos captam a luz de maneira diferente à medida que passamos.
Lucrécia Bórgia casou-se com Alfonso I d’Este e tornou-se duquesa de Ferrara, integrando uma corte que recorria à cerimónia, à diplomacia e à arte como instrumentos de poder. Criou aqui um círculo literário e tornou-se mecenas por mérito próprio, para lá da fama infame que a acompanhara desde Roma.
Ludovico Ariosto publicou em Ferrara a primeira edição de Orlando Furioso, onde servia a corte dos Este. Revê-lo-ia durante anos, dando aos seus cavaleiros, amantes e enredos errantes um lugar no universo de espetáculos da corte da cidade.
Torquato Tasso entrou ao serviço da corte dos Este, onde escrevia para um público versado em poesia e representação. A sua peça pastoril Aminta foi levada à cena em Ferrara em 1573; mais tarde, crises pessoais levaram ao seu confinamento no Hospital de Sant’Anna.
Fortes abalos atingiram Ferrara a 16 e 17 de novembro, danificando palácios, igrejas e edifícios públicos por toda a cidade. As réplicas prolongaram-se durante anos, e a catástrofe alterou o curso do Pó, lembrando que até uma cidade cuidadosamente planeada depende do terreno sob os seus pés.
Quando Alfonso II d’Este morreu sem herdeiro legítimo, o Papa Clemente VIII reclamou Ferrara para os Estados Pontifícios. A família Este retirou-se para Módena, e Ferrara perdeu a corte que encomendara os seus castelos, palácios e salas pintadas.
As autoridades papais confinaram os habitantes judeus de Ferrara a um gueto centrado na Via Mazzini, na Via Vignatagliata e na Via Vittoria. As portas fechavam à noite, transformando ruas familiares em fronteiras impostas por lei.
As tropas revolucionárias francesas entraram em Ferrara em junho, pondo fim à Legação Pontifícia e submetendo a cidade a uma nova ordem política. Nos anos napoleónicos que se seguiram, a fortaleza papal foi demolida, libertando parte das defesas do sudoeste da cidade.
O acordo que se seguiu à queda de Napoleão devolveu Ferrara aos Estados Pontifícios, embora permitisse a permanência de uma guarnição austríaca. O regresso da cidade à autoridade papal lembrava que as decisões sobre a sua segurança continuavam a ser tomadas muito para lá das suas muralhas.
Um plebiscito, em 1860, integrou Ferrara no Reino da Sardenha, que em breve se tornaria o Reino de Itália. O caminho de ferro chegou à cidade em 1862, ligando mais estreitamente os seus campos, oficinas e ruas de tijolo à nova rede nacional.
Durante a Primeira Guerra Mundial, artistas como Giorgio de Chirico, Alberto Savinio e Carlo Carrà encontravam-se em Ferrara, onde as praças tranquilas e a arquitetura de linhas marcadas da cidade alimentaram uma nova forma de pintura. As suas telas faziam as ruas familiares parecer estranhamente vazias, como se os edifícios tivessem sobrevivido às pessoas que deviam habitá-los.
A 15 de novembro, forças fascistas executaram onze pessoas junto à muralha do fosso do Castello Estense, após o assassínio de Igino Ghisellini, dirigente fascista local. A alvenaria do castelo tornou-se cenário de um massacre político, mais tarde recordado nos escritos de Giorgio Bassani.
As forças do Oitavo Exército Britânico e as unidades de partisans italianos entraram em Ferrara a 24 de abril. A cidade saiu da ocupação e dos bombardeamentos com perdas profundas, incluindo a deportação de muitos membros da sua histórica comunidade judaica.
A UNESCO inscreveu Ferrara na Lista do Património Mundial devido ao seu plano urbano e à sua arquitetura renascentistas. A classificação foi alargada em 1999 para incluir o Delta do Pó e as villas de campo da família Este, ligando a cidade ao território mais vasto que sustentava a sua corte.
Dois grandes terramotos atingiram a região da Emília em maio, danificando monumentos de Ferrara, incluindo a catedral, o Palazzo dei Diamanti e o Palazzo Schifanoia. As obras de restauro voltaram a cobrir de andaimes edifícios cujas pedras já tinham resistido aos abalos de 1570.
O Museu Nacional do Judaísmo Italiano e da Shoah abriu em Ferrara, no local da antiga prisão municipal. A sua localização dá à longa história judaica da cidade um espaço público, incluindo a história da comunidade devastada pelas deportações durante o Holocausto.
Poeta · 1544–1595
Trabalhou na corte dos Este e esteve confinado em Sant’Anna
Na corte dos Este, Tasso encontrou mecenas para Aminta, representada na ilha de Belvedere, em Ferrara, em 1573; mais tarde, os conflitos e a angústia levaram ao seu confinamento em Sant’Anna. Talvez reconhecesse o gosto duradouro da cidade pelo espetáculo, patente nos teatros e nas festas de rua.
Poeta · 1474–1533
Serviu na corte dos Este em Ferrara
Ariosto serviu a corte dos Este enquanto escrevia e revia Orlando Furioso, poema épico que leva os seus cavaleiros muito para além da corte que o apoiava. Talvez apreciasse ver que as ruas antigas de Ferrara continuam a recompensar quem se perde sem destino.
Astrónomo · 1473–1543
Doutorou-se em direito canónico em Ferrara, em 1503
Copérnico veio a Ferrara para estudar direito canónico e doutorou-se aqui em 1503, muito antes de o seu trabalho alterar a forma como as pessoas imaginavam os céus. A vida universitária da cidade talvez lhe parecesse familiar hoje; as ruas de tijolo, nem tanto.
Frade dominicano e pregador · 1452–1498
Nasceu e cresceu em Ferrara
Savonarola começou a vida em Ferrara antes de se tornar o fervoroso pregador associado à Fogueira das Vaidades de Florença. Talvez visse o esplendor cortesão preservado da cidade como um contraste incisivo com os ataques que viria a dirigir contra o luxo.
Arquiteto e urbanista · c. 1447–1516
Concebeu a Addizione Erculea de Ferrara
Ao serviço do duque Ercole I d’Este, Rossetti concebeu a Addizione Erculea, uma ambiciosa expansão renascentista que permitiu a Ferrara crescer para lá das ruas antigas. Talvez se sentisse satisfeito por as pessoas continuarem a percorrer o seu plano a pé, em vez de o verem apenas desenhado num mapa.
Duquesa e mecenas · 1480–1519
Duquesa de Ferrara de 1502 até à sua morte
Lucrécia chegou a Ferrara em 1502 para se casar com Alfonso I d’Este e fez da cidade a sua casa, criando na corte um círculo literário e artístico. Talvez reconhecesse os mesmos palácios, mas visse o trânsito de bicicletas da cidade moderna como um cortejo bem diferente.
Pintor renascentista · c. 1436–1478
Nasceu em Ferrara; pintou frescos no Palazzo Schifanoia
Nascido em Ferrara, del Cossa pintou as secções de março, abril e maio do Salone dei Mesi, no Palazzo Schifanoia, onde deuses, signos do zodíaco e a vida da corte partilham as paredes. Talvez se surpreendesse por os visitantes ainda pararem para ler um calendário pintado para um duque.
Onde os locais realmente reservam jantar — não as ementas para turistas.
Pequenas coisas que mudam a forma como a cidade o trata.
A cidade, tal como realmente é.
Sim, sobretudo se se interessa por arte renascentista e urbanismo. O Castello Estense rodeado pelo fosso, os frescos do Palazzo Schifanoia e as ruas da Addizione Erculea dão à cidade uma identidade distinta da dos centros maiores da Emília-Romanha.
Reserve dois dias completos para o castelo, o Palazzo dei Diamanti, o Palazzo Schifanoia e um passeio sem pressas pelo centro antigo. Acrescente mais um dia para visitar museus ou participar num festival, se quiser saborear as refeições com calma e conhecer as muralhas da cidade.
O centro histórico percorre-se facilmente a pé ou de bicicleta, um meio de transporte muito presente no quotidiano de Ferrara. Esteja atento aos ciclistas enquanto passeia e consulte as informações locais atualizadas sobre transportes se precisar de se deslocar para fora do centro.
A informação de investigação disponível não permite estabelecer uma avaliação de segurança atualizada para Ferrara; consulte os avisos de viagem para Itália emitidos pelo seu governo antes de partir. No centro, tome as precauções habituais com os seus objetos de valor e tenha atenção às bicicletas que circulam pelas ruas.
Os preços das refeições variam consoante o restaurante, e a informação de investigação disponível não inclui valores atuais dos menus. Verifique se a conta inclui o coperto, normalmente entre 1,50 € e 3 €; não se espera que deixe gorjeta, embora seja habitual arredondar o valor.
O final da primavera e o início do outono são épocas de grandes eventos culturais: o Palio realiza-se no último fim de semana de maio e o festival de jornalismo Internazionale decorre no início do outono. O Festival Buskers costuma realizar-se no final de agosto; confirme as datas antes de viajar.
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