A History Told Through Its Eras
Quando o Barro, a Cana e a Contabilidade Inventaram a Cidade
Suméria e as Primeiras Cidades, c. 5400-2000 a.C.
A alvorada nasce sobre os pântanos do sul, e um sacerdote atravessa o barro húmido com um cesto de cevada e um estilete cortado de cana. Ainda não é império, ainda não é epopeia, ainda não é o trovão dos reis. É mais silencioso do que isso. Nas terras em torno de Ur e das grandes cidades-templo do sul do Iraque, as pessoas começam a medir cereal, água, trabalho e dívida e, ao fazê-lo, criam algo quase mais espantoso do que um palácio: a administração.
O que a maioria das pessoas não percebe é que a escrita aqui não começa com poesia nem com profecia. Começa com inventário. Uma tabuinha de Uruk é menos romântica do que uma carta de amor e muito mais revolucionária, porque, quando uma colheita pode ser contada, uma cidade pode crescer para lá da memória de um único ancião. Por volta de 3200 a.C., Uruk torna-se a primeira verdadeira metrópole que o mundo conhecera, com templos, oficinas, muralhas e estranhos a aprender a arte difícil de viver lado a lado.
Depois vêm os túmulos de Ur, e com eles o arrepio por trás do esplendor. No Cemitério Real, escavado na década de 1920, a rainha Puabi surge em folhas de ouro, lápis-lazúli e cornalina, ainda radiante após quatro mil e quinhentos anos. Contudo, à sua volta jaziam acompanhantes que parecem tê-la seguido para a morte numa cerimónia cortesã cuidadosamente encenada. A majestade, aqui, já exigia testemunhas.
Os objetos encontrados em Ur contam outra história, quase terna na ambição. Lápis-lazúli do Afeganistão, conchas do Golfo, madeira vinda de longe: mesmo no início, o Iraque não estava isolado, mas ligado, uma dobradiça entre mundos. Essa rede de rotas fluviais e caminhos de caravana tornar-se-ia o destino do país, e também o seu peso, em todas as épocas que se seguiram.
A rainha Puabi sobrevive não por meio de crónicas, mas por um diadema, um selo e o silêncio inquietante dos que foram enterrados ao seu lado.
A escrita mais antiga conhecida do sul do Iraque regista bens e rações, o que significa que a primeira voz escrita que ainda conseguimos ouvir é a de um contabilista.
Reis de Tijolo e Fogo
Akkad, Babilónia e Assíria, c. 2334-539 a.C.
Uma criança num cesto deixado sobre um rio: Sargão de Akkad escolheu essa imagem para si muito antes de as escrituras a tornarem célebre. Seja verdade ou não, pouco importa; ele compreendia o poder do mito. A partir da Mesopotâmia forjou o que muitos historiadores chamam o primeiro império, provando que as cidades do Iraque podiam fazer mais do que prosperar. Podiam mandar.
A Babilónia dá então ao poder um traje jurídico. Hammurabi faz gravar as suas leis em basalto negro, mais alto do que um homem, para que a justiça fique de pé em pedra diante de todos. Se as lermos de perto, a grandiosidade fende-se um pouco: acordos de casamento, taxas, castigos, ossos partidos, falsas acusações. Um reino revela-se pelo que teme. Aqui, a ordem nunca foi uma abstração. Era doméstica, financeira, íntima e muitas vezes brutal.
E depois chega o grande teatro da vaidade imperial. Nabucodonosor II refaz a Babilónia numa cidade de tijolo vidrado, vias processionais e portas que parecem concebidas para a eternidade. Na Babilónia atual, a sul de Bagdá, os contornos sobreviventes ainda carregam a antiga arrogância. O que quase ninguém percebe é que os famosos Jardins Suspensos talvez nunca tenham existido ali; alguns estudiosos suspeitam que a lenda pertence a Nínive, não à Babilónia. Até as maravilhas do mundo antigo são capazes de mudar de morada.
A norte, a Assíria governa com um génio mais frio. Em Nínive, perto da atual Mossul, Assurbanípal reúne milhares de tábuas numa biblioteca real enquanto também se vangloria de inimigos esfolados e cabeças decepadas. É o bibliotecário e o carrasco no mesmo corpo. A história inicial do Iraque não embeleza o poder. Mostra o brilhantismo a caminhar de mãos dadas com o terror.
Quando Ciro da Pérsia entra na Babilónia em 539 a.C., fá-lo quase sem combate. Sacerdotes abrem portões que exércitos outrora tinham golpeado em vão. Os antigos reinos mesopotâmicos não desaparecem pura e simplesmente, mas o seu centro de comando desloca-se, e o Iraque começa uma nova vida como província cobiçada de impérios maiores.
Nabucodonosor II, tantas vezes reduzido a vilão bíblico, era também um construtor obcecado por tijolo, cor e a coreografia do espanto.
Quando George Smith decifrou a história do dilúvio na Epopeia de Gilgamesh, no British Museum, em 1872, diz-se que ficou tão transtornado que arrancou a roupa e correu pela sala.
Entre Impérios Mundiais, o Iraque Guarda as Chaves
Persas, Gregos, Partas e Sassânidas, 539 a.C.-637 d.C.
Em 331 a.C., Alexandre, o Grande, entra na Babilónia não como vândalo, mas como admirador. Vê uma cidade que ainda conserva o brilho residual de uma realeza impossível e escolhe-a para capital. Dois anos depois morre ali aos trinta e dois anos, febril e exausto, num palácio associado a Nabucodonosor. Imagine a sala: comandantes a sussurrar, mapas desenrolados, um corpo subitamente pequeno demais para a sua lenda.
Depois de Alexandre, o Iraque torna-se o prémio que nenhum império pode ignorar. Selêucidas, partas, romanos na fronteira, depois sassânidas: todas as dinastias compreendem a mesma coisa. Quem controla as planícies fluviais, as estradas de caravana e as cidades antigas domina uma riqueza desproporcionada ao mapa. É por isso que Hatra, no deserto do norte, importa tanto. Não é apenas uma ruína fotogénica. É um lugar que recusou Roma duas vezes.
A história de Hatra tem o sabor de uma crónica antiga, e merece-o. Em 198 d.C., o exército de Septímio Severo não consegue romper a cidade, e a tradição posterior diz que os defensores lançaram vasos cheios de vespas sobre os atacantes. Soa quase cómico até se lembrar o calor, a armadura, o pânico. A guerra no Iraque sempre recompensou tanto a engenhosidade quanto a força.
Mais a sul ergueu-se Ctesifonte, perto da moderna Bagdá, sede da majestade sassânida e lar do vasto arco hoje conhecido como Taq Kasra. Mesmo quebrado, continua a parecer improvável, como se o tijolo tivesse decidido tornar-se clima. Quando os exércitos árabes chegaram no século VII, encontraram não uma transferência ordeira de poder, mas os restos de uma corte já em fuga, tesouros abandonados, cerimónias interrompidas. Esse vazio seria em breve preenchido por uma nova linguagem de governo e por uma nova capital que mudaria a história intelectual do mundo.
Alexandre morre na Babilónia antes de conseguir transformar a conquista em governo, deixando atrás de si uma única palavra tão ambígua que generais matam para lhe dar sentido.
O arco de Taq Kasra continua a ser uma das maiores abóbadas de tijolo não reforçado alguma vez construídas, uma fanfarronice régia em alvenaria que ainda se recusa a cair.
A Cidade Circular e a Casa da Sabedoria
O Califado Abássida e a Longa Sombra de Bagdá, 762-1258
Um califa está no terreno escolhido em 762 e ordena que uma capital passe a existir. A Bagdá de al-Mansur é concebida como geometria tornada política: uma cidade circular perfeita, anelada e planeada, com o califa no centro como o cubo de um instrumento celeste. Pouco desse círculo original sobrevive hoje à superfície de Bagdá, mas a ousadia continua a fazer parte do temperamento da cidade.
O que se segue é um dos grandes florescimentos da civilização urbana. Eruditos traduzem filosofia grega, matemática indiana, arte de governar persa; médicos, astrónomos e poetas trabalham numa cidade que trata o saber como tesouro. O que a maioria das pessoas não percebe é que a famosa Casa da Sabedoria não era uma biblioteca de conto de fadas flutuando fora da política. Existia porque os califas queriam prestígio, legitimidade e ciência útil. Até o esclarecimento tinha patronos.
No entanto, essa idade de ouro não é feita só de sábios. Os mercados enchem as margens do rio. O papel circula. Cozinheiros, copistas, barqueiros, concubinas, juristas e mercadores alimentam a vida da cidade. Nas ruelas da velha Bagdá ainda se sente essa herança: livros ao lado do chá, discussão ao lado da oração, elegância ao lado da improvisação. As grandes cidades não se tornam civilizadas por acidente. São construídas todos os dias por pessoas cujos nomes nunca entram nas crónicas.
Depois chega 1258. Os Mongóis, sob Hulagu, tomam Bagdá, e o massacre entra na memória quase como fim do mundo. Os cronistas escrevem que o Tigre correu negro de tinta dos livros e vermelho de sangue; talvez a imagem seja perfeita demais para ser totalmente fiável, mas a verdade emocional basta. Uma cidade que se imaginara no centro da Terra descobre quão frágil pode ser o brilho.
A queda de Bagdá não apaga a importância do Iraque. Muda-lhe o tom. A partir daí, o país continua indispensável, mas mais vezes como terreno disputado do que como centro incontestado, e esse é o drama dos séculos seguintes.
Harun al-Rashid cintila na lenda, mas por trás da seda e da cerimónia estava um governante a gerir facções, finanças e um império que podia virar-se contra ele de um dia para o outro.
A capital abássida original foi desenhada como um círculo verdadeiro, um dos atos de urbanismo mais ousados do mundo medieval.
Os Impérios Partem, o Iraque Fica
Otomanos, Monarquia, República e o Iraque de Agora, 1534-Presente
Paxás otomanos, xeques tribais, cidades-santuário e mercadores estrangeiros deixam todos a sua marca no Iraque da primeira modernidade, mas o século XX chega com instrumentos mais cortantes: mandatos, petróleo, fronteiras desenhadas sob pressão. Depois da Primeira Guerra Mundial, os britânicos ajudam a criar o Reino do Iraque e colocam Faisal I no trono de Bagdá em 1921. É uma monarquia cosida à pressa, elegante no aspeto e inquieta no encaixe.
A história real tem todos os ingredientes de que Stéphane Bern gostaria: linhagem, cerimónia, salões, expectativas impossíveis. Faisal e o seu círculo tentam soldar Bagdá, Basra, Mossul, as cidades-santuário de Najaf e Karbala, as tribos, os curdos, as minorias, a velha elite otomana e a nova classe de oficiais num só Estado. É uma empresa formidável. Sente-se a cada passo quão pouco espaço a história deixa para a hesitação.
Depois chega a terrível rutura de 1958. A monarquia hachemita é derrubada com uma violência tão súbita que o ritual palaciano cede lugar ao sangue no chão. O que quase ninguém percebe é com que frequência o Iraque moderno oscila não entre ordem e caos, mas entre promessas concorrentes de salvação: nacionalismo árabe, governo militar, controlo baathista, intervenção estrangeira, mobilização sectária, esperança democrática. Cada uma diz vir reparar a nação. Cada uma deixa cicatrizes.
O final do século XX escreve-se em guerras e ruínas: a Guerra Irão-Iraque, a invasão do Kuwait, as sanções, a ditadura, a repressão, depois a invasão de 2003 e os seus longos abalos posteriores. Mas parar aí seria falhar o país em si. Em Erbil, a cidadela continua a erguer-se sobre o mercado. Em Basra, os cursos de água e as palmeiras-datileras ainda moldam a memória. Na Babilónia, velhas fantasias imperiais encontram política muito contemporânea. Em Mossul, reconstruir depois da devastação torna-se um ato moral tanto quanto cívico.
O Iraque de hoje não é um museu de catástrofes. É um país a discutir a sua própria herança à vista de todos. Os juncos voltam em partes do sul, perto de Ur e Al-Qurnah, os peregrinos continuam a afluir a Najaf e Karbala, e Bagdá continua a escrever, comer, chorar os seus mortos e rir. Talvez essa seja a continuidade mais profunda de todas.
O rei Faisal I percebeu, quase desde o primeiro dia, que herdara não uma nação estabilizada, mas uma conversa difícil entre províncias, lealdades e memórias.
Na revolução de 1958, a queda da monarquia hachemita foi tão súbita que a etiqueta da corte, os uniformes e a cerimónia dinástica desapareceram numa única manhã.
The Cultural Soul
Uma Saudação Tem Primeiro de Dar a Volta à Sala
No Iraque, a fala não entra pela porta da frente. Dá a volta à casa, pergunta pela sua mãe, abençoa o seu regresso, quer saber como dormiu e só então admite que alguém queria indicações para uma praça de táxis em Bagdá.
O árabe iraquiano tem um grão próprio: vogais suaves, súbitos pedregulhos na voz, palavras otomanas ainda escondidas no uso diário como moedas antigas no forro de um casaco. Em Erbil e Suleimânia, o curdo muda outra vez o ar; as consoantes ficam mais direitas, e a frase parece saber exatamente onde começa a montanha.
Um país revela-se pelo que considera rude. Aqui, a eficiência pode parecer brutal. Se fizer primeiro a pergunta prática, vão responder-lhe, mas saberão que foi criado por horários. Se começar com um shlonak, aceitar o chá e deixar que o ritual gaste o primeiro minuto na sua existência em vez da sua necessidade, toda a troca amolece; a língua deixa de ser uma ferramenta e passa a ser toalha de mesa.
A Nação Come pelo Fogo e pela Paciência
Masgouf não é um prato. É um argumento contra a pressa, conduzido à beira do Tigre em Bagdá com uma carpa aberta, tamarindo, fumo e três horas pacientes enquanto o peixe se inclina para o fogo como um penitente.
A cozinha iraquiana prefere profundidade a espetáculo. O tashreeb transforma pão em tesouro ensopado, o dolma aperta cebolas e folhas de videira com tal precisão que parecem escritas por um calígrafo, e a pacha aparece ao pequeno-almoço com a confiança que só uma velha civilização consegue reunir antes do meio-dia.
As tábuas de receitas mais antigas encontradas na Mesopotâmia descrevem guisados, caldos, aromáticos, ordem. Nada de teatral. Essa contenção sobrevive de Basra a Mossul. Até a doçura se comporta com disciplina: a kleicha cheira a tâmara e cardamomo, e basta. Um país é uma mesa posta para estranhos, mas o Iraque primeiro verifica se o estranho merece a cadeira.
Chá Antes da Verdade
A hospitalidade no Iraque tem regras, e as regras são uma forma de poesia. O copo pequeno chega primeiro, âmbar escuro, adoçado sem pedir desculpa, e a sua recusa é tratada não como preferência, mas como uma breve falha de julgamento.
Em Najaf ou Karbala, a cortesia ganha uma precisão cerimonial; em Bagdá, pode vestir um casaco mais conversado, mas a estrutura mantém-se. Não se apressa um anfitrião. Não se fala como se os horários estivessem acima das pessoas. Não se sai antes da segunda rodada, a menos que queira que a sua ausência seja lembrada.
O que os forasteiros chamam generosidade muitas vezes parece, por dentro, honra servida em bandeja. Alguém vai insistir. Alguém vai acompanhar. Alguém vai pagar com a dignidade ofendida de um monarca privado da sua função. Se resistir demais, insulta a coreografia. Aceite, e retribua quando chegar a sua vez. A civilização começa por saber quando não discutir.
Cúpulas Douradas, Tecido Negro e a Matemática do Luto
A religião no Iraque não é música de fundo. Organiza a luz, o trânsito, o apetite, o luto, o ouro, o pó e o movimento de cidades inteiras; em Najaf, o santuário do Imã Ali brilha com a severidade da crença, e em Karbala a dor transforma-se em arquitetura pública.
Durante o Muharram e sobretudo na Arbaeen, o lamento sai da sala privada e toma a rua. Bandeiras negras atravessam as estradas, procissões avançam a pé, comida gratuita aparece das mãos de homens que mexem arroz em caldeirões do tamanho de pequenos barcos, e a ideia de caridade deixa de ser abstrata. Alimenta-o com uma concha.
Até um visitante secular sente aqui a força do ritual, porque o ritual é físico. Sapatos descalçados. Testa inclinada. Chá entregue a desconhecidos. Quilómetros percorridos sob bandeiras. No Iraque, a fé não é apenas professada. É cozinhada, carregada, recitada, polida e estendida sobre uma cidade até a própria cidade parecer respirar em compasso.
O Tijolo Lembra-se do que os Impérios Esquecem
O Iraque constrói em tijolo como outros países constroem em mito. O material parece modesto até se perceber o que já suportou: cheias, conquistas, abandono, restauro e a vaidade de governantes da Babilónia à Bagdá moderna, todos a tentar convencer o barro de que devia comportar-se como a eternidade.
Na Babilónia, as muralhas ainda falam a gramática do poder. Em Ur, o zigurate ergue-se com aquela velha certeza mesopotâmica de que escadas podem negociar com o céu. Hatra está no deserto com a elegância teimosa de uma cidade de caravanas que um dia repeliu Roma, e Mossul, depois das suas feridas, carrega a lição crua de que reconstruir nunca é o mesmo que regressar.
Depois vem a Cidadela de Erbil, pousada sobre a planície como uma memória que recusou o despejo durante seis mil anos. A arquitetura do Iraque não lisonjeia quem a olha. Exige resistência histórica. Observa-se um arco, uma parede de adobe, uma fachada de santuário revestida de espelhos e ouro, e percebe-se que a permanência aqui sempre foi uma ambição perigosa. Mesmo assim, as pessoas continuaram a construir.
A Mesopotâmia inventou a escrita para cereais, dívidas, gado, quantidades. Depois, quase de imediato, a humanidade cansou-se da pura contabilidade e compôs Gilgamesh, que é um uso muito melhor da argila. Parece-me uma história de origem perfeita para a literatura: primeiro o inventário, a metafísica depois do almoço.
O Iraque ainda vive dentro dessa contradição. A Rua Al-Mutanabbi, em Bagdá, vende livros com o zelo que outras cidades reservam às joias, e o próprio nome da rua é uma declaração de que a poesia deve ocupar o asfalto, o comércio, a conversa e a tarde de sexta-feira. Um livreiro aqui pode recomendar um volume com a gravidade de um farmacêutico a entregar um medicamento.
O país pagou caro pelas suas bibliotecas, arquivos e manuscritos. Esse preço não o curou da leitura. Ainda bem. As civilizações revelam-se pelo que reconstroem primeiro. Algumas escolhem bancos. O Iraque, teimosamente, continua a voltar às palavras.