Aqui, a história não é uma relíquia, mas uma textura viva. O nome sânscrito da cidade, Varahamula, significa “focinho de javali”, numa alusão às suas origens míticas, mas a sua alma foi moldada pelo santo sufista do século XIV Shah-i-Hamdan. A sua mesquita, a Khanqah-e-Moula, fica no coração da cidade, com interiores que formam uma sinfonia silenciosa de papel-machê e marcenaria khatamband, um trabalho artesanal tão preciso que parece prender a respiração. A poucos minutos a pé, o complexo do Holy Family Hospital, construído por missionários católicos no final do século XIX, continua em funcionamento, com a sua alvenaria colonial em diálogo discreto com os minaretes. Este é um lugar onde as fés convergiram, e não entraram em choque, durante séculos.
Mas Baramulla também é um ponto de viragem numa história moderna. Em outubro de 1947, forças tribais irromperam por este desfiladeiro na primeira grande invasão da Caxemira, incendiando partes da cidade antes da chegada das forças indianas, uma cicatriz ainda viva na memória local. Aquele momento selou o destino da região e fez de Baramulla mais do que uma paragem cénica; é um arquivo vivo das consequências da Partição. Hoje, a vida volta a correr sobre a ponte do Jhelum, onde pescadores lançam as redes ao amanhecer e o ar traz o travo de fumo de lenha e pão acabado de cozer.