c. 11000 a.C.-1500
Antes da Cruz e da Coroa, um Continente de Jardins, Guerras e Memória
A névoa da manhã paira sobre Lagoa Santa, em Minas Gerais, e uma arqueóloga ergue um crânio da terra em 1975. Ela será chamada de Luzia, e vai perturbar cada narrativa arrumadinha que as pessoas gostavam de repetir sobre o povoamento das Américas. O que muita gente não percebe é que o Brasil não começa com as velas de Cabral no horizonte; começa com rostos, fogueiras, sepultamentos e caminhos gastos no chão milhares de anos antes.
A Amazônia também não era uma cortina verde vazia à espera da descoberta europeia. Na Ilha de Marajó, perto de Belém, pessoas ergueram imensos aterros de terra entre cerca de 400 e 1300 d.C., enquanto por toda a bacia produziam terra preta, solo escuro e fabricado, mais rico do que grande parte do chão da floresta ao redor. Isso muda tudo. Uma mata que os europeus tomaram por natureza intocada já havia sido moldada por mãos humanas, por cozinheiros, lavradores, oleiros e chefes cujos nomes em grande parte sumiram quando a doença chegou antes dos cronistas.
Ao longo da costa atlântica, povos de língua tupinambá viviam num mundo de alianças, vingança e guerra ritual que horrorizava os europeus porque recusava categorias europeias. Hans Staden, um artilheiro alemão capturado em 1552, descreveu prisioneiros mantidos por meses, até anos, antes da morte cerimonial e dos banquetes canibais destinados a absorver a força do inimigo. Montaigne o leu com atenção. Os supostos selvagens viraram espelho no qual a Europa enxergou com mais nitidez seus próprios massacres religiosos.
Esse primeiro Brasil não tinha um só trono, nem capital, nem hino, mas tinha política, agricultura, cosmologia e rotas de troca que iam mais longe do que os portugueses imaginaram em 1500. E quando aqueles navios afinal chegaram, não desembarcaram num vazio. Entraram num mundo humano cheio, já antigo, já disputado, já povoado pelos mortos.